
A Região Metropolitana enfrenta um cenário desafiador e preocupante na saúde pública. O aumento nos casos de hepatite A e leptospirose em Campinas e cidades vizinhas acendeu um alerta vermelho para as autoridades sanitárias. Entre os anos de 2022 e o início de 2026, a região contabilizou um total alarmante de 577 infecções somando as duas enfermidades.
Os dados foram compilados pelo Grupo de Vigilância Epidemiológica (GVE) de Campinas e divulgados pelo governo estadual. Os números comprovam a estreita e perigosa relação dessas doenças com o contato com água contaminada, um problema histórico frequentemente associado às enchentes e alagamentos de verão que castigam a metrópole.
A gravidade da situação se torna ainda mais evidente quando observamos o índice de letalidade. No mesmo intervalo analisado, a leptospirose ceifou a vida de vinte moradores da região, sublinhando a urgência de medidas preventivas e de investimentos em infraestrutura.
Leptospirose: Mortalidade e o perigo na lama
Entre as duas enfermidades monitoradas, a leptospirose destaca-se negativamente pela sua alta letalidade. As vinte mortes registradas na região de Campinas mostram o quão agressiva a doença pode ser se não tratada rapidamente.
A leptospirose é uma infecção bacteriana (causada pela Leptospira) transmitida quase exclusivamente pelo contato da pele — especialmente se houver arranhões ou feridas — com água ou lama contaminadas pela urina de animais infectados, sendo o rato de esgoto o principal transmissor nos centros urbanos.
Esse cenário ressalta o perigo invisível deixado pelas tempestades. Muitas vezes, ao tentar salvar móveis ou limpar a casa após um alagamento, o morador se expõe diretamente à bactéria sem a devida proteção.
Hepatite A: Detalhes da transmissão fecal-oral
Por outro lado, os casos de hepatite A e leptospirose em Campinas dividem a mesma origem precária de saneamento. A hepatite A é uma infecção viral aguda que ataca o fígado.
Sua transmissão não ocorre apenas pelo contato com a pele, mas predominantemente pela via fecal-oral. Isso significa que o contágio acontece através da ingestão de água ou alimentos contaminados com o vírus, ou mesmo pelo contato direto, de mãos não lavadas, com uma pessoa já infectada.
A presença sustentada de casos de hepatite A na região reforça a necessidade urgente de melhorias na infraestrutura de esgoto e de campanhas massivas de higiene pessoal. A falta de saneamento básico em comunidades periféricas é o principal motor dessa contaminação cruzada.
A conexão crítica com as enchentes
Ambas as doenças compartilham um vetor comum e altamente preocupante: a água contaminada das enchentes urbanas. As fortes chuvas criam um ambiente propício para a disseminação de patógenos mortais.
Quando os rios, como o Capivari ou o Ribeirão Anhumas, transbordam, a água limpa se mistura com o esgoto a céu aberto, lixo acumulado nas ruas e a urina dos roedores presente nos bueiros. Esse “coquetel tóxico” invade residências e comércios, elevando o risco de exposição para toda a população atingida.
Sintomas de alerta: Quando procurar o médico?
A conscientização e a rápida comunicação de sintomas suspeitos às Unidades Básicas de Saúde (UBSs) ou UPAs são essenciais. Os sintomas podem demorar de 7 a 14 dias para aparecer após o contato com a água suja. Fique atento a:
Sintomas de Leptospirose:
- Febre alta e repentina;
- Dor de cabeça intensa;
- Dor muscular severa (especialmente na região da panturrilha/batata da perna);
- Olhos e pele amarelados (icterícia) em casos graves.
Sintomas de Hepatite A:
- Fadiga extrema e mal-estar;
- Náuseas e vômitos;
- Urina muito escura (cor de Coca-Cola) e fezes claras;
- Pele e olhos amarelados.
Medidas de Vigilância e Prevenção
Diante do alto índice de hepatite A e leptospirose em Campinas, a Vigilância Epidemiológica mantém o monitoramento contínuo, mas a população deve fazer a sua parte na prevenção:
- Evite o contato: Nunca nade, brinque ou caminhe em águas de enchentes. Impeça que crianças tenham contato com a lama residual.
- Proteção adequada: Ao limpar a casa pós-alagamento, utilize botas de borracha e luvas longas. Se não tiver, improvise amarrando sacos plásticos duplos nos pés e mãos.
- Descarte de alimentos: Jogue fora alimentos e medicamentos que tiveram contato direto com a água da enchente, mesmo que estejam em embalagens fechadas.
- Desinfecção eficaz: Lave paredes, chão e móveis com uma solução de água sanitária (para cada 20 litros de água, adicione 2 copos de água sanitária).
- Água potável: Consuma apenas água filtrada e fervida (por pelo menos 5 minutos) caso o abastecimento público tenha sido comprometido.
As medidas de higiene e o cuidado com a água são, hoje, a principal vacina contra essas doenças que silenciosamente castigam as famílias após os temporais.

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