O Fórum da cidade foi palco, nesta quinta-feira (05), de um dos julgamentos mais aguardados e carregados de emoção dos últimos anos. O júri popular em Hortolândia colocou no banco dos réus o mecânico nigeriano Alfred Johnson, acusado de homicídio qualificado contra o ativista cultural Wagner Luiz Alves, de 37 anos, e de tentativa de assassinato contra uma segunda vítima.

Os crimes que chocaram a comunidade ocorreram em abril de 2021, no interior de uma chácara local. Cinco anos após a tragédia, o destino de Johnson foi entregue às mãos de um conselho de sentença formado por sete jurados, responsáveis por avaliar as provas e formular o veredito definitivo. A sessão gerou imenso interesse público e teve suas gravações em áudio e vídeo expressamente proibidas pela direção do Fórum para garantir a lisura do processo.

O Relato Contundente do Sobrevivente

Ao longo da tarde, que se estendeu de forma tensa até o início da noite, oito testemunhas foram ouvidas. O depoimento mais impactante foi, sem dúvida, o da segunda vítima do ataque, um integrante do movimento negro que participava da mesma reunião que Wagner Alves no dia do crime.

Ainda carregando as marcas físicas e psicológicas do atentado — ele foi ferido por dois disparos, sendo um no pé e outro nas nádegas, cujo projétil permanece alojado em seu corpo —, o sobrevivente narrou a dinâmica dos fatos com riqueza de detalhes.

Durante seu testemunho perante o juiz, ele negou enfaticamente a existência de qualquer briga, discussão ou desentendimento prévio que pudesse sustentar a tese de “legítima defesa” por parte do atirador. Segundo o sobrevivente, o grupo estava reunido em um ambiente de total tranquilidade, debatendo a criação de uma ONG voltada para projetos sociais em Hortolândia.

Mas o que Alfred Johnson fazia no local? De acordo com os autos, o mecânico, acompanhado de sua esposa grávida, estava na chácara a convite do proprietário (também de nacionalidade nigeriana) apenas para realizar pequenos serviços de manutenção no imóvel e no veículo do anfitrião. Ele não possuía qualquer envolvimento ou conexão com a reunião das lideranças comunitárias.

Mobilização Social na porta do Fórum

Enquanto os debates jurídicos aconteciam a portas fechadas no tribunal, a entrada do Fórum de Hortolândia se transformou em um palco de clamor por equidade.

Dezenas de integrantes dos movimentos negro e social de Hortolândia e da vizinha Campinas organizaram uma manifestação pacífica. Utilizando instrumentos de percussão, o grupo realizou um ato musical em homenagem à memória do ativista. A batida dos tambores sublinhou a importância do legado de Wagner Alves para a comunidade carente e reforçou o pedido incansável por respostas severas do judiciário.

“Como se fosse o enterro dele de novo”: A dor da viúva

O peso da impunidade prolongada ficou evidente nas palavras de Cristiane Dias de Silva Alves, viúva de Wagner. Visivelmente abalada ao reviver o trauma, ela expressou a profunda dor de encarar o homem acusado de destruir sua família.

“Hoje, na hora de eu sair da minha casa, parecia que eu estava saindo para o enterro dele, mais uma vez. Para enterrar ele de novo”, desabafou Cristiane.

Ela reiterou sua esperança em uma condenação máxima que reflita a brutalidade do ato, descrevendo o marido como um homem pacífico e incapaz de gerar qualquer violência. “Não se mata uma pessoa com tiro na nuca sem ter feito nada. Uma pessoa que não matava nem uma mosca”, afirmou a viúva.

A motivação por trás da explosão de violência de Alfred Johnson permanece um mistério absoluto para a família. “Nós nem imaginamos. Não tem de onde imaginar”, relatou Cristiane, lembrando que o mecânico e sua esposa foram recebidos com hospitalidade na chácara e até servidos à mesa junto com os demais antes dos disparos, o que torna o crime ainda mais inexplicável e covarde.

A Estratégia da Defesa

Representando o réu neste júri popular em Hortolândia, o advogado de defesa Antônio Gonzales optou por uma postura reservada e não comentou o caso detalhadamente com a imprensa antes da leitura da sentença.

Contudo, a linha central da defesa no plenário baseou-se na difícil alegação de legítima defesa. Os advogados tentaram sustentar a versão apresentada pelo réu de que ele teria reagido a uma suposta ameaça iminente, justificativa que colide frontalmente com o depoimento do sobrevivente e com o fato de a vítima fatal ter sido atingida na nuca (pelas costas).

O portal Conexão Hortolândia segue de plantão acompanhando os momentos finais do julgamento e trará, em primeira mão, o resultado do veredito assim que for proferido pelo juiz presidente do tribunal do júri.

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