
O momento do luto exige respeito, dignidade e, acima de tudo, rigor sanitário. No entanto, uma fiscalização rigorosa realizada nesta última quarta-feira (18) revelou um cenário preocupante na cidade vizinha. O caso de uma funerária interditada em Sumaré chamou a atenção das autoridades após a constatação de diversas e graves irregularidades que colocam em risco direto a saúde pública, o meio ambiente e a segurança dos próprios trabalhadores.
A ação, deflagrada pelas equipes técnicas da Vigilância Sanitária de Sumaré, resultou na interdição parcial do estabelecimento comercial. A medida emergencial e punitiva concentrou-se exclusivamente no setor laboratorial da empresa, conhecido tecnicamente como sala de tanatopraxia.
A partir desta semana, a empresa está terminantemente proibida de realizar qualquer procedimento de preparação de cadáveres em suas instalações até que cumpra todas as exigências legais.
O que é a Tanatopraxia e por que ela exige rigor?
Para compreender a gravidade da interdição, é preciso entender o serviço prestado. A tanatopraxia é uma técnica moderna e absolutamente crucial no preparo de corpos para os velórios.
O procedimento envolve a higienização profunda, a assepsia e a injeção de fluidos químicos de conservação no sistema arterial do falecido. O objetivo é retardar o processo natural de decomposição por um período aproximado de 72 horas, devolvendo a aparência natural ao corpo para que a família possa realizar um velório de caixão aberto com dignidade, sem riscos de vazamento de odores ou fluidos.
Por envolver a manipulação de sangue, fluidos corporais e produtos químicos fortes (como o formol), a sala de tanatopraxia deve funcionar com o mesmo rigor de assepsia de um centro cirúrgico hospitalar.
Focos de contaminação e os riscos encontrados
O relatório da Vigilância Sanitária que culminou com a funerária interditada em Sumaré expôs falhas críticas e inaceitáveis nos protocolos de biossegurança do local.
Entre os problemas mais graves que levaram as autoridades a lacrarem as portas do setor, destacam-se:
- Gestão de Resíduos Biológicos: O descarte de materiais contaminados (como luvas, gazes, fluidos drenados e restos biológicos) estava sendo feito de maneira totalmente inadequada. Esse tipo de falha representa um risco gravíssimo de contaminação do solo, da rede de esgoto comum e do lençol freático, além de expor a comunidade ao entorno.
- Falta de Higienização: Foram identificadas deficiências severas nos protocolos de limpeza e desinfecção das macas, instalações e equipamentos (instrumentais) utilizados na preparação.
- Ausência de Esterilização: A falta de ambientes esterilizados e procedimentos operacionais padronizados compromete a integridade do processo, facilitando a proliferação de bactérias e infecções cruzadas que podem atingir os funcionários do local.
Consequências, impactos e o respeito às famílias
É importante ressaltar que a interdição é parcial. Isso significa que a área administrativa do estabelecimento, o atendimento ao cliente e a venda de urnas funerárias (caixões) podem continuar funcionando. Contudo, o coração do serviço funerário — a preparação do ente querido — está paralisado.
O impacto direto dessa interdição recai sobre as famílias enlutadas da região. Como a funerária não pode utilizar seu próprio laboratório, ela será obrigada a terceirizar a preparação dos corpos em outras clínicas regularizadas (o que pode gerar atrasos na liberação para o velório) ou a comunidade precisará buscar alternativas em outras empresas do setor na cidade.
Para que a funerária interditada em Sumaré possa reabrir sua sala de tanatopraxia, a direção da empresa deverá apresentar um Plano de Ação (Plano de Gerenciamento de Resíduos de Serviços de Saúde – PGRSS) detalhado à Prefeitura.
A Vigilância Sanitária continuará monitorando o caso de perto e fará uma nova e minuciosa inspeção. As portas só serão destrancadas quando 100% das não conformidades sanitárias estiverem corrigidas, garantindo assim que a saúde pública e a dignidade das famílias sejam rigorosamente respeitadas em um momento de tanta dor.
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