A Polícia Civil do Estado de São Paulo divulgou atualizações técnicas sobre o inquérito que apura a morte de Carla Viviane da Silva, de 29 anos. O caso, inicialmente registrado como homicídio em Hortolândia durante a madrugada desta quarta-feira (29), no bairro Jardim Boa Esperança, está sendo rigorosamente analisado sob a qualificadora de feminicídio.

O companheiro da vítima foi preso em flagrante delito no local da ocorrência. A análise preliminar da cena do crime e o laudo cadavérico inicial apresentaram divergências substanciais em relação ao depoimento prestado pelo suspeito, levando a autoridade policial a descartar, neste primeiro momento, a hipótese de morte acidental.

Dinâmica da abordagem e isolamento da cena

O registro da ocorrência teve início por volta das 0h27, quando o Centro de Operações da Guarda Municipal (GM) de Hortolândia foi acionado em apoio a uma unidade do Serviço de Atendimento Móvel de Urgência (SAMU). A equipe médica havia sido despachada para o Jardim Boa Esperança para atender uma vítima de ferimento por arma de fogo (FAF).

Ao adentrarem a residência, os socorristas constataram o óbito de Carla Viviane. O corpo da vítima foi localizado na área externa do banheiro. Durante a inspeção visual preliminar de segurança, as equipes da Guarda Municipal e da Polícia Científica identificaram manchas de sangue concentradas no interior do box do banheiro. Esta evidência técnica sugere que a vítima foi alvejada no recinto interno e, posteriormente, seu corpo foi movimentado, o que pode configurar alteração de cena de crime.

Durante as diligências no perímetro do imóvel, os guardas municipais realizaram a abordagem do companheiro da vítima no exato momento em que ele tentava se evadir do local. Os procedimentos adotados resultaram nas seguintes apreensões:

  • Com o suspeito: Foram localizadas três munições intactas de calibre .38 em seus bolsos.
  • No imóvel: A arma utilizada no crime, um revólver calibre .38 com a numeração de identificação raspada, foi encontrada sobre a pia do banheiro. O tambor do armamento continha uma cápsula deflagrada e duas munições intactas.

A versão do suspeito e a contestação técnica

Conduzido ao Plantão Policial para prestar esclarecimentos formais, o indivíduo apresentou um álibi baseado na tese de disparo acidental. Em seu depoimento, o homem alegou que mantinha o revólver ilegal na residência devido a supostas ameaças que a companheira estaria sofrendo de terceiros.

A versão apresentada sustentava que, ao retornar para casa e encontrar a mulher no banheiro, a arma teria escorregado de suas mãos, caído ao solo e disparado acidentalmente, atingindo Carla.

A tese, no entanto, foi imediatamente refutada pelo delegado de polícia responsável pelo plantão. A contestação baseou-se em princípios de balística e medicina legal. O ferimento letal sofrido pela vítima consistiu em um disparo direto e retilíneo na região do pescoço. A angulação e a trajetória do projétil são técnica e fisicamente incompatíveis com o comportamento de uma arma que efetua um disparo acidental ao colidir contra o solo.

Diante das inconsistências probatórias, o delegado ratificou a prisão em flagrante. O suspeito foi indiciado, inicialmente, pelos crimes de homicídio consumado e porte ilegal de arma de fogo de uso restrito (devido à numeração suprimida).

Transferência para a DDM e oitivas de testemunhas

Para garantir o rigor no levantamento de informações referentes à convivência do casal, a investigação do homicídio em Hortolândia foi oficialmente transferida para a Delegacia de Defesa da Mulher (DDM) do município, unidade especializada na condução de inquéritos de feminicídio.

A equipe de investigadores da DDM já iniciou a fase de oitivas. Os primeiros depoimentos colhidos de vizinhos e familiares apresentaram narrativas distintas:

  • Um irmão da vítima relatou às autoridades desconhecer a existência de conflitos graves, agressões prévias ou brigas frequentes no histórico do casal.
  • Em contrapartida, uma testemunha que reside nas proximidades relatou à polícia ter presenciado episódios recentes de discussões, ressaltando a observação de um comportamento excessivamente ciumento por parte do suspeito.

Todos os aparelhos celulares (da vítima e do suspeito) foram apreendidos e encaminhados ao Instituto de Criminalística (IC). A extração autorizada de dados telemáticos será fundamental para mapear o histórico de mensagens e verificar a veracidade das alegações sobre ameaças externas ou um possível ciclo de violência doméstica oculto. O casal deixa dois filhos menores, que já estão sob a supervisão do Conselho Tutelar e de familiares.

Canais oficiais para denúncia de violência

A Secretaria de Segurança Pública reforça a importância da comunicação imediata de qualquer sinal de escalada de violência doméstica. O Estado disponibiliza canais gratuitos e sigilosos para orientação e socorro:

  • 190 (Polícia Militar): Para emergências e agressões em andamento (viatura no local).
  • 180 (Central de Atendimento à Mulher): Para denúncias anônimas, orientação jurídica e encaminhamento para redes de acolhimento, com funcionamento 24 horas por dia.

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