A Polícia Civil do Rio Grande do Sul prendeu nesta quarta-feira (1º), em Hortolândia (SP), o influenciador Lucas Tiago Oliveira de Cerqueira, suspeito de comandar a parte financeira de uma sofisticada quadrilha que aplicava golpes digitais usando deepfakes de celebridades. A ação faz parte da Operação Modo Selva, que desarticulou um esquema de fraude que movimentou até R$ 210 milhões.

Como a operação começou

A investigação teve início quando uma vítima procurou a Polícia Civil após ser ludibriada por uma campanha que prometia um “kit antirrugas grátis” da marca Principia, supostamente endossado por Gisele Bündchen. O golpe envolvia apenas R$ 44,57 de “taxa de frete”, mas chamou atenção pela sofisticação técnica, com vídeo falso (deepfake) da modelo promovendo o produto inexistente.

Segundo a delegada Isadora Galian, responsável pela investigação, o caso inicial revelou uma organização criminosa altamente estruturada:

“O que começou como um estelionato aparentemente simples revelou um grupo que explorava nomes de grandes marcas nacionais com técnicas digitais avançadas.”

Estrutura do golpe

O esquema funcionava em quatro etapas:

  1. Criação do conteúdo fraudulento: usando tecnologia de deepfake, os criminosos produziam vídeos falsos de Gisele Bündchen, Angélica Huck, Juliette, Maísa e Sabrina Sato, promovendo produtos inexistentes ou jogos online ilegais.
  2. Divulgação massiva: os vídeos eram postados em perfis falsos no Instagram e Facebook, incluindo contas criadas com dados fictícios e conexões via VPN para esconder a localização real.
  3. Captura das vítimas: interessados eram direcionados a sites falsos e induzidos a fornecer dados pessoais e efetuar pagamentos via PIX, processados por gateways controlados pelo grupo.
  4. Lavagem do dinheiro: valores eram movimentados por empresas fantasmas e contas de “laranjas”, incluindo idosas de 80 e 84 anos, sem o conhecimento delas.

Principais envolvidos

  • Levi Andrade da Silva Luz, apontado como o “cérebro” da operação, criava deepfakes e mantinha uma espécie de “universidade do crime digital” pelo perfil @modoselvaoficial, ensinando outros criminosos a aplicar golpes.
  • Lucas Tiago Oliveira de Cerqueira, conhecido como “LB”, era responsável pela articulação financeira do grupo, controlando contas bancárias e exibindo ostentação nas redes sociais com carros blindados, helicópteros e viagens internacionais.
  • Leonardo Sales de Santana, chamado de “facilitador de pagamentos”, operava o gateway de transações fraudulentas Elite Pay, que possuía mais de mil reclamações no site Reclame Aqui em 12 meses.
  • Lais Rodrigues Moreira (Japa) utilizava seus mais de 110 mil seguidores para impulsionar os golpes e promover jogos de azar ilegais, ampliando o alcance das fraudes.

Ostentação e desprezo pelas vítimas

A investigação revelou que o grupo exibia riqueza adquirida com golpes, incluindo Porsche, Range Rover, BMW e viagens de helicóptero. Vídeos obtidos pela polícia mostravam integrantes debochando das vítimas, reforçando o desprezo pelo sofrimento alheio.

A tecnologia a serviço do crime

Os criminosos utilizavam VPNs internacionais, e-mails criptografados e deepfakes cada vez mais sofisticados. Um vídeo apreendido mostrou um quadro com as palavras “DEEP FAKE” e “K.Y.C”, indicando estudo para burlar sistemas de verificação bancária.

Impacto e próximas etapas

A Operação Modo Selva cumpriu 7 prisões preventivas, 9 mandados de busca e apreensão, bloqueio de 21 contas e criptoativos, e apreensão de 10 veículos. As investigações continuam, com rastreamento de vítimas e cooperação internacional para identificar recursos enviados ao exterior.

Crimes investigados

O grupo responderá por:

  • Estelionato com fraude eletrônica
  • Organização criminosa
  • Lavagem de dinheiro
  • Jogo de azar

Alerta à população

A Polícia Civil orienta:

  • Desconfie de promoções “imperdíveis” com celebridades;
  • Verifique a autenticidade de perfis e empresas;
  • Nunca forneça dados pessoais sem confirmação;
  • Denuncie qualquer suspeita de golpe, mesmo que o valor seja baixo.

“Esta investigação mostra como a tecnologia pode ser usada tanto para o bem quanto para o mal. Precisamos desenvolver técnicas de investigação tão sofisticadas quanto os crimes que combatemos”, concluiu o diretor Filipe Borges Bringhenti.

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