
A paciência da população chegou ao limite mais uma vez. De fato, o persistente e insuportável mau cheiro da ETE de Hortolândia motivou uma nova manifestação popular na última sexta-feira (2). Cansados de conviver com o odor que invade as casas dia e noite, os moradores foram às ruas para exigir respeito e soluções definitivas.
O ato de protesto ocorreu estrategicamente nas proximidades da unidade, localizada na região do Jardim Jatobá. A Estação de Tratamento de Esgoto (ETE), operada pela Sabesp, é apontada pela vizinhança como a grande vilã da qualidade de vida local.
Durante a mobilização, o clima era de indignação. Faixas foram fixadas no portão da estação com mensagens claras e diretas, como “queremos ar limpo”. Além disso, as críticas aos impactos negativos do odor na saúde pública, como náuseas e dores de cabeça, foram constantes nos discursos.
Para simbolizar a dificuldade de respirar no local, alguns participantes chegaram a usar máscaras cirúrgicas e de proteção. Essa imagem forte reforça a gravidade da situação enfrentada por centenas de famílias que residem no entorno.
Causas do odor e mobilização
A ETE de Hortolândia foi inaugurada em 2009. A unidade utiliza um sistema de tratamento baseado em lagoas de aeração abertas. Segundo os residentes e especialistas, esse modelo a céu aberto é a principal causa da propagação do mau cheiro da ETE de Hortolândia pelos bairros vizinhos, dependendo da direção do vento.
O empresário Erick Soares de Oliveira, um dos líderes da manifestação, revelou que a luta não é de hoje. Os moradores têm acionado a Companhia Ambiental do Estado de São Paulo (Cetesb) há mais de um ano para registrar queixas formais.
Conforme o relato de Oliveira, vistorias realizadas entre agosto, setembro e outubro do ano passado (2023) chegaram a identificar falhas operacionais na estação.
Entretanto, uma mudança no tom dos laudos gerou desconfiança. Relatórios subsequentes, emitidos em novembro e dezembro, passaram a indicar a ausência de irregularidades. Contudo, essa conclusão técnica contradiz a realidade sentida pelo nariz de quem mora na região, onde o forte odor permanece intenso.
Relatórios apontam sobrecarga no sistema
A desconfiança dos moradores tem base em dados técnicos anteriores. Um relatório da Agência Reguladora de Saneamento e Energia do Estado de São Paulo (Arsesp), divulgado em agosto de 2025, já havia apontado problemas graves.
O documento técnico listou potenciais fatores para o mau cheiro da ETE de Hortolândia. Por exemplo, mencionou a falta de um manejo adequado do lodo gerado no processo de tratamento, que acaba acumulando e exalando gases.
Além disso, e talvez mais preocupante, a Arsesp indicou que a estação estaria operando acima do limite. A vazão média registrada foi de 422 litros por segundo, enquanto a capacidade nominal de projeto é de apenas 315 litros por segundo.
Ou seja, a estação estaria recebendo muito mais esgoto do que consegue tratar eficientemente. Consequentemente, o processo biológico fica comprometido, resultando na liberação de odores fétidos.
Posicionamento oficial da Sabesp e Prefeitura
Diante da pressão popular, as autoridades se manifestaram. Em comunicado divulgado nesta segunda-feira (5), a Sabesp informou que está ciente do problema.
A concessionária afirmou que está implementando uma série de medidas técnicas para mitigar os odores provenientes do tratamento. Segundo a nota, as ações seguem um cronograma que foi acordado previamente com a Prefeitura.
Por sua vez, a Prefeitura de Hortolândia confirmou que acompanha o caso de perto. A administração municipal diz fiscalizar as ações anunciadas pela concessionária para proteger a população.
Entretanto, o município fez uma ressalva importante. A Prefeitura destacou que o prazo estabelecido anteriormente, em setembro, para a eliminação completa do mau cheiro da ETE de Hortolândia não foi cumprido pela empresa.
Diante desse descumprimento, a administração municipal prometeu intensificar a cobrança. O objetivo é exigir uma atuação mais rigorosa da Cetesb e da Arsesp na fiscalização e punição, se necessário.
Investimentos milionários e controvérsias
A Sabesp defende que está investindo pesado na unidade. Em outubro de 2025, durante uma vistoria que contou com a presença da deputada estadual Ana Perugini, a empresa detalhou um aporte de R$ 28 milhões.
Na ocasião, a empresa afirmou estar concluindo obras vitais. Entre elas, a limpeza geral, a remoção de lodo acumulado e a modernização do sistema de aeração, que injeta oxigênio nas lagoas.
Entre as melhorias listadas, a Sabesp destacou:
Remoção completa de lodo das lagoas aeradas e de decantação;
Polimento de nove lagoas que recebem o esgoto bruto;
Implantação de um novo sistema de aeração mais eficiente.
Na época da visita, a concessionária assegurou que essas medidas já haviam reduzido os odores em aproximadamente 70%.
Contudo, esse índice estatístico é veementemente contestado pelos moradores. Para quem vive no Jardim Jatobá, a realidade do mau cheiro da ETE de Hortolândia continua a mesma, ou até pior em dias quentes.
Enfim, a comunidade aguarda por soluções definitivas e não paliativas. Enquanto a tensão aumenta entre os residentes e as entidades gestoras, a população segue refém de janelas fechadas.
Canais de Reclamação:
Sabesp: 0800 055 0195
Cetesb (Hortolândia/Campinas): (19) 3272-5088
Arsesp: 0800 771 6883

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